12 ago 2008

Desassossego

Andares inquietos circulando pra lá e pra cá. Os passos vão até o final do corredor e voltam, em um lugar onde a vida vem e vai. Os olhares também estão inquietos e as mãos não sabem ao certo o que fazer. Todos esperam uma notícia. O médico sai do quarto e diz: “Parabéns!”. O coração parece explodir, o sangue circula tão rápido que logo os lábios se esticam num sorriso de esperança. Bem ao lado, no mesmo instante o médico sai e diz: “Eu sinto muito”. O coração parece implodir, ficando tão apertado que o sangue parece não mais circular pelo corpo. E quando, finalmente, a mensagem chega ao cérebro, os olhos se enchem de lágrimas repletas de desilusão.

Aquela mão pequena e suave que nada sabe da vida é acariciada; e à cabeça vêm os planos, o sentimento de proteção e o pensamento: “Obrigada meu Deus!”.
As mãos grossas e calejadas são acariciadas com a mesma ternura. Pela cabeça só passam as memórias e o sentimento de impotência. E como um sinal de redenção, o pensamento é: “Vai com Deus!”.

A mãe recebe o filho embrulhadinho em uma manta. Ele é tão pequeno que cabe exatamente em seus braços. A mãe exclama: “Meu filho. Um presente de Deus. Pra mim a vida começou agora.”
Desta vez a mãe vai ao encontro do filho, coberto por uma manta que não tem mais cheiro de lavanda. Ela o abraça mesmo não tendo mais força para pegá-lo no colo. A voz abafada e dolorida também exclama: “Meu filho, meu filho. Eu só entrego a Deus. A vida não tem mais alegria”*.

*Essa foi uma das tantas frases dita pela minha avó. Coisas que me marcaram demais, mas que eu ainda não tenho a sublime capacidade de entender, nem sentir.

Em memória de João Corrêa das Neves

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Nenhuma resposta para "Desassossego"

Cadu
07-04-2011 @ (23:41)

assim…
tremendamente forte e…
estranhamente doído com uma
transcriçaõ perfeita das emoções.
e…
é isso. não sei mais o que dizer, esse negócio é de sentir.
:*


May
08-04-2011 @ (00:01)

Meu Deus.
Senti muitas coisas!
Meu coração explodiu e implodiu numa fração de segundos.
“Tô” em choque ainda. Calma.
Vou me recuperar das “pequenas-grandes” emoções… E tentar entender.
Porque sentir, eu senti!



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