17 nov 2008

Bem pouco de mim

Tem um texto do Pedro Bial que diz: “Defenda a sua palavra. A vida não vale nada se você não tem uma boa história pra contar”. Eu tenho uma, e não prometo ser breve.

No dia 9 de fevereiro de 1987 eu nasci. Sei que era calor, pois nesse mês o verão está com tudo. Meu cabelo era negro e cacheado e a boca muito avermelhada. As fotos provam que eu fui um bebê realmente bonito, porque não dá pra acreditar somente nas descrições da minha mãe. Até hoje eu não sei o motivo, mas, quando eu era criança sempre batia na minha prima Bárbara, tudo com a ajuda de outro primo, o João, que também a agredia, mas com um requinte a mais: a espada do Jáspion. Aos seis anos eu implorava por um irmão ou irmã, não fazia diferença o sexo, queria mesmo era uma companhia. A imagem que vem a minha cabeça dessa época é da minha mãe chorando no quarto, me dizendo que perdeu o bebê, que até então eu nem sabia que existia. Nesse período eu morava em Gravatal, uma cidade simples e pequena no sul do estado. Logo em seguida me mudei pra Florianópolis, mais precisamente pra São José, mas a gente sempre quer dizer que é Florianópolis. Era tudo diferente, mas eu gostava muito. O mais legal de tudo é que minha mãe engravidou de novo, e dessa vez foi pra valer. Nasceu a Maria, que é tão simples e calma como o nome. Nesse mesmo ano eu estudava no centro e não tinha amiga nenhuma no colégio. Mas me lembro bem do dia que tive que ir vestida de palhaço e meu pai como bom pintor e desenhista que é fez em mim uma ótima caracterização. O problema foi que eu cheguei atrasada e todos os coleguinhas pararam pra me olhar. Eu não gosto disso. Minha mãe gostou tando da idéia de ter mais filhos que um ano e pouco após a Maria nascer veio o Pedro, que não é nada rígido como a rocha. E até os meus 12 anos tudo era brincadeira, viagens à Gravatal com a família, gincana do colégio Visão, verões com meus dois melhores amigos, a Bárbara e o João e pique-esconde com o pessoal do prédio. No metade do ano de 1999 meu pai viajou pros Estado Unidos e eu nem sabia o motivo. Até que em dezembro ele voltou e disse que todos iriam voltar com ele. Dessa vez eu quiz saber o motivo, que era o mesmo de todos que viajam assim de “supetão” pra fora do país. Eu estava disposta a ajudar, sem ter a mínima idéia do que estava por vir. Passamos o natal em Gravatal, como todos os outros anos.

No dia 7 de fevereiro de 2000 embarcamos para Nova York. Dia 8 de fevereiro eu já estava lá, num lugar que tinha outro cheiro, as pessoas tinham outra aparência, e falavam uma lingua que eu não entendia. Nevava muito. Eu nem prestei atenção no lugar, por mais que fosse New York City, a tão sonhada cidade de todos. Eu queria mesmo era voltar pro meu prédio e brincar de boneca com a vizinha de baixo. Não, eu não fiquei em NYC, fui pra Fall River, cidade pequena. A experiência dos dois anos que passei lá dariam um outra história. As vezes era bom, mas na maior parte das vezes era solitário. Resumindo, foi marcada por transformações. Meu corpo mudou, meus valores mudaram, meus pais mudaram. E em torno a tantas mudanças minha mãe engravidou de novo. Nasceu a Victória, nome escolhido por mim, sem mais significados. 24 de abril de 2002 retornei ao Brasil. Desta vez com mais dúvidas do que quando parti. Eu teria que sentir de novo tudo aquilo que senti antes, a falta de noção do que estava por vir. Parece que eu não conhecia mais ninguém. E os amigos só queriam saber “como é morar lá?” “tu fala inglês?”. Dava vontade de dizer “Oi pessoal! Sou eu! A mesma pessoa!”. Eu me guardei tanto pro momento da volta, mas a vida continuou pra quem ficou. E eu não percebia isso. Queria tudo do jeito que eu deixei, mas é claro que não estava. Eu voltei pro mesmo colégio, mas as pessoas não eram as mesmas. Mais uma vez tive que me adaptar. Escolhi como amparo uma amiga, que foi durante muito tempo minha sustentação. Essa sim era forte como a rocha, Rochanna. Com ela senti a ótima sensação de ser jovem e curtir muito. Até que um dia ela ficou com a carinha que eu gostava – coisinha de colégio. Meu mundo caiu pela primeira vez. Senti o amargo gosto da decepção. Mas em seguida senti o delicioso sabor do perdão. E meu mundo ascendeu de novo.

Terceirão, o plano era ter um namorado pra levar no baile. Eu consegui um que foi mais que um namorado, foi amigo e companheiro. Mas eu sempre fui muito livre e independente pra escolher o tamanho da saia que eu iria usar. Não durou. Em janeiro de 2005 comecei a trabalhar na assessoria de imprensa da Assembléia Legislativa. Em agosto ingressei na faculdade de jornalismo, o que me fez entender por que sempre escrevi em diário e blogs. Lá encontrei minha nova sustentação, Isaura, que de escrava não tem nada. Já dessa vez nós descobrimos juntas as delícias de ser mulher e gostar de Sex and the City. E hoje tudo que eu procuro é… bom, isso já não é mais hitória. Quem sabe seja, daqui a mais 21 anos.


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Nenhuma resposta para "Bem pouco de mim"

Anderson
17-11-2008 @ (12:25)

>auhehatenho q dizer q aquela parte da indepedência e tamanho de saia me fez rir..;D



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