13 out 2008

Mentiras sinceras, verdades farsantes

Aos poucos começo a pensar que minha vida amorosa turbulenta não é tão ruim assim. A gente sempre aprende um pouco. Minha história é mais ou menos assim:

Eu estava ficando com um cara e o relacionamento estava lá pelo segundo mês. Até aí tudo tranquilo. Nesse ponto eu já criava espectativa de namorar o suposto cara. De repente, não mais que de repente, ele sumia. Sim, aquela velha história de que os homens somem; eu sei de cor! Não foi uma vez, nem duas, foram várias. A verdade é que eu nunca, nunca mesmo fui atrás de explicações. Sempre pensei: “Se não quer, não vou insistir”. Eu simplesmente saía de campo, como se não tivesse um zilhão de perguntas pra fazer. Perguntas do tipo: “Até ontem tava tudo bem, me diz então por quê?”. Não, era humilhação demais, eu achava. Eu achava que meu último relacionamento era um início de namoro só porque o cara dormia “de conchinha” comigo. Não era uma prova de que ele adorava a minha companhia à noite e sim a fragilidade explícita do homem. Talvez eu não tivesse entendido os sinais e simplesmente acreditado numa sinceridade que não existia. Mas, mesmo assim eu deixava passar, sem exlicações. E eu que sempre fui boa em argumentar…

Logo após o sumiço eles apareciam com uma namorada. Outra pessoa ocupando o lugar que eu tava querendo. Eu agia muito bem na frente delas, sociável até demais. Eu tinha medo de correr riscos, de arriscar. Nunca lutei por nenhum deles. Nunca lutei pelos meus futuros e sonhados namoros. De tão amigável que eu era, mal olhava pra cara do meu ex-ficante, atual namorado daquela que eu batia um papo fingindo normalidade, fingindo incapacidade de dizer: “Cala a boca sua vaca!”, mesmo que a culpa não fosse dela. Mas eu fazia tudo direitinho pra não causar constrangimento, nem ciúmes. Eu sabia que não podia fazer com os outros o que não queria que fizesse comigo. Isso aconteceu tantas vezes comigo, que minhs amigas me zoam dizendo que eu preparo os homens para outras mulheres.

Quando eu percebi que agir tão corretamente não estava dando em nada, quebrei um dos meus principais protocolos. Tudo bem se eu arriscar, o amor é uma loteria, meu pai sempre diz. Num bate papo sobre relacionamentos com a minha mãe ela me disse: “Faz o que tu quer, não o que os outros querem”. Ela, que antes me dizia para nunca passar por cima dos outros por causa dos meus interesses, me disse a frase libertadora, como se eu tivesse esperando a permissão dela pra enfim fazer um pouco o que eu quero. Errar um pouco e agir de forma egoísta não me fez sentir culpa. Nesse tempo de “Indrodução ao namoro” eu descobri que alguém sempre tem que perder. E de agora em diante, que não seja eu.

ps: não estava contando a história de um caso amoroso, mas de alguns.


12 set 2008

Querida amiga,

[À]s vezes sinto pena de você. Sempre buscando maneiras de se adequar ao seu homem. Comprando revistas femininas na tentativa de achar dicas de comportamento. “Prato perfeito para um jantar a dois”. Lá vai você se desdobrar em 5 para dar conta do trabalho, da academia, dos filhos, e do tal jantar que não pode falhar. No editorial moda o título é “Invista em roupas sensuais para conquistar seu gato”. E você, querida, pesando 20kg a mais e 100 kg de culpa tira do guarda-roupa aquele tubinho vermelho de quando você tinha 20 anos. Saúde: “Exercícios que aumentam a libido. Seu namorado vai adorar”. Ai ai, mais uma vez você lê e segue à risca, mas sem pensar no seu prazer, e sim no dele. Na parte Vida profissional as dicas são: “Como conciliar filhos e carreira?”, “Meu salário é maior que o dele”, “Como agir com o assédio no trabalho”. E quando começa o relacionamento, você apela para os sites na esperança que seu signo combine com o dele. E onde fica a autenticidade? A surpresa? Você faz o prato preferido dele, fica grilada pensando no assunto que ele gosta, coloca aquela roupa que ele gosta, faz o sexo igualzinho às dicas da revista (mesmo que isso não faça você sentir-se à vontade). E agora? Agora você está super cansada, nervosa, esperando a campainha tocar. Querida, naquela tarde de terça-feira sem graça quando ele te ligou, tudo que ele queria era vê-la, simplesmente. Não espere demais dos homens. Seja mais você E lembre-se: existem várias, assim como você, seguindo direitinho a receita da bula.

Beijos, K


03 set 2008

Amor, amor

Sofrer por amor é inevitável. A dor de quando um relacionamento acaba, ou quando perece que vai acabar nos faz sentir o mundo virar de cabeça pra baixo (tudo bem, ele vira literalmente a todo instante). Porque, convenhamos, se tudo acabou sem dor, então não era amor. Eu não sei exatamente o que é, mas vamos nomear de amor o sentimento entre namorados. No início do namoro o amor é gostoso, mas mesmo assim dói um pouco, dói pela insegurança. No meio tempo do namoro também dói, porque sempre tem uma briga e te faz ficar agoniada por uma semana ou duas horas, o que dói igual. E no fim quando tudo acaba o amor continua machucando quem foi deixado. A pessoa chora, ouvindo mil vezes a música do Djavan, não come, não sai pra passear. E não adianta alguém dizer “não sofre, vai passar”. Tudo bem, vai mesmo, mas enquando não passa, o amor te causa uma dor insustentável.

Tem vezes que o sofrimento não é só pelo fim do namoro. Eu tenho uma colega de faculdade que tem uma namoro que diz ser perfeito. Ela sabe que o ama e tem certeza da reciprocidade. E com medo da perfeição ela terminou o namoro. Então será que sofrer por amor não é somente inevitável, mas necessário? Porque se tá tudo bem, se ele não te causa ciumes, não tem chulé e não dança daquele jeito que tu odeias, não tem graça. O amor tem que ter altos e baixos, tem que doer pra depois sarar. Se for sempre em linha reta é amor de mãe. Uma briga entre mãe e filha/filho não gera preocupação. Briga entre amigas não gera insegurança, basta o tempo passar e vocês voltam a se falar. Agora namorado é diferente. Existe a insegurança por não saber se ele vai voltar mesmo. Aquela história de deixar livre tudo que ama e se voltar é porque sempre as tive e se não voltar é porque nunca foram minhas é muito bonita, mas na prática… Ninguém deixa livre quem ama e espera voltar. No amor de namorados não existe isso.

A solução deve ser aproveitar o amor. Chorar, rir, brigar, fazer as pazes e ir levando. Deve ser por isso que não existe a fórmula perfeita pro relacionamento amoroso, sexual. O único ingrediente imprescindível pra ele é o amor, e este não têm como ser questionado.


29 ago 2008

O pecado sempre bate à porta

Até onde vai a fidelidade masculina? Será que é como uma escala que vai dos que traem até o que não traem? Aos poucos me parece que não existe grau para a infidelidade; que na verdade ela é unânime. O pecado da carne um dia vai bater à sua porta. Uns viciam, outros experimentam e alguns se arrependem. Os casos de traição vindo dos homens parecem não ter um motivo. As mulheres também traem, claro, mas na maioria das vezes têm um motivo. Os homens não. Arriscam o amor, o carinho, o cuidado – essência da vida – por uma noite, um beijo ou uns segundos de prazer.

Na minha história foi por uma noite. Uma amiga me apresentou a um cara, eu me interessei e o beijei. Era, sinceramente, o que eu queria naquela noite. Mas não havia expectativa de envolvimento, porque eu tinha acabado de sair de um “namorico”. Meus planos eram outros e me envolver com alguém definitivamente não era um deles. Então tudo bem, todo mundo fica na balada, certo?

No outro dia quando vou procurar o tal nadador no orkut dou de cara com muitas fotos, recados e depoimentos apaixonados. Sem problemas, afinal eu não sabia e tinha sido só uma ‘ficada’.
Foi quando o tal peixinho começou a me mandar mensagens. Mandou o sufuciente pra eu começar a gostar delas. E aquilo era muito confuso, já que eu sabia exatamente o que ele queria de mim. E eu não dizia nada. Era o meu lado negro se manifestando?

Como disse uma conhecida: “Ele tá tentando te seduzir”. E por algumas semanas eu fiquei na indecisão, meio perdida. E eu não gosto de homem que me deixa perdida. Mas com ele eu quase me deixei seduzir. Eu quase quis, quase entrei em uma furada, quase passei por cima dos meus valores, quase me tornei vazia e sem rumo, assim como todas que se envolvem com homens comprometidos.

Ainda bem que eu odeio o quase. Sim ou não. Essas são nossas únicas opções. E passando mais uma provação… com ele eu disse não.


12 ago 2008

Desassossego

Andares inquietos circulando pra lá e pra cá. Os passos vão até o final do corredor e voltam, em um lugar onde a vida vem e vai. Os olhares também estão inquietos e as mãos não sabem ao certo o que fazer. Todos esperam uma notícia. O médico sai do quarto e diz: “Parabéns!”. O coração parece explodir, o sangue circula tão rápido que logo os lábios se esticam num sorriso de esperança. Bem ao lado, no mesmo instante o médico sai e diz: “Eu sinto muito”. O coração parece implodir, ficando tão apertado que o sangue parece não mais circular pelo corpo. E quando, finalmente, a mensagem chega ao cérebro, os olhos se enchem de lágrimas repletas de desilusão.

Aquela mão pequena e suave que nada sabe da vida é acariciada; e à cabeça vêm os planos, o sentimento de proteção e o pensamento: “Obrigada meu Deus!”.
As mãos grossas e calejadas são acariciadas com a mesma ternura. Pela cabeça só passam as memórias e o sentimento de impotência. E como um sinal de redenção, o pensamento é: “Vai com Deus!”.

A mãe recebe o filho embrulhadinho em uma manta. Ele é tão pequeno que cabe exatamente em seus braços. A mãe exclama: “Meu filho. Um presente de Deus. Pra mim a vida começou agora.”
Desta vez a mãe vai ao encontro do filho, coberto por uma manta que não tem mais cheiro de lavanda. Ela o abraça mesmo não tendo mais força para pegá-lo no colo. A voz abafada e dolorida também exclama: “Meu filho, meu filho. Eu só entrego a Deus. A vida não tem mais alegria”*.

*Essa foi uma das tantas frases dita pela minha avó. Coisas que me marcaram demais, mas que eu ainda não tenho a sublime capacidade de entender, nem sentir.

Em memória de João Corrêa das Neves

24 jul 2008

Surprising Me!


Nada como uma conversa sincera. Falar o que quer, por pra fora os medos e frustrações. Porque admitir a alguém sua fraqueza é um grande passo para começar a mudar, ter coragem. Coloquei como descrição do blog Surprising Me porque é exatamente isso que eu espero de mim, e consequentemente, de tudo que eu venha fazer. Me surpreender, me impressionar, e assim superar meus medos que são muitos.

Entre eles, deixar transparecer que, às vezes, eu posso precisar de ajuda. Ninguém é auto-suficiente. É claro que eu sempre soube disso, mas me habituei a pensar que se os problemas são meus, sou eu quem tem que resolve-los. É que eu tenho uma mania muito feia de querer esconder esses problemas. Não por não confiar em ninguém, mas por que talvez eu não goste de mostrar minha fraqueza.

Quem começa a trabalhar cedo, quem quer desde pequena impressionar os pais vira uma “mulherzinha feita as pressas” (uma pessoa me disse isso uma vez e eu nunca esqueci). Na verdade isso tudo me deixa orgulhosa, mas também criou uma barreira.É difícil aceitar que alguém queira te proteger, queira cuidar de ti. Eu to falando de relacionamento a dois, namoro. E não existe namoro independente. O homem têm por instinto ou mania, sei lá, o cuidado. Então uma das coisas que eu quero, e vou aprender é deixar alguém se preocupar comigo, sem dizer “eu sei me virar” e não achar que é ‘pegação no pé’.

Nunca é tarde pra começar a fazer ou aprender o que ficou pra trás nesse rápido processo – e vontade – de virar adulta. E é nesse novo aprendizado que eu vou começar a me surpreender. Pois melhor que ser admirado pelos outros é ter orgulho de si.

Desabafo. E daí? O blog é meu.


01 jul 2008

Vivência

Por três terças-feiras eu fui a um centro de tratamento para viciados em drogas (adictos). O objetivo era vivenciar e assim escrever. Fazer um jornalismo mais humano, mais próximo.

Eis meu texto:

Receios de lá e de cá

Preconceito. Medo. É isso que todos sentem ao lidar com o diferente. Adentrar o Recanto Silvestre, em Biguaçu, é, sobretudo, ultrapassar os limites do inusitado. A magia e o encanto de descobrir o novo fazem pensar que os homens que lá vivem estão em um mundo à parte. Mas é tudo muito real. Jovens e adultos adictos com o objetivo de resistir às suas fraquezas superam suas expectativas. Todos estão em busca da credibilidade perdida há muito tempo. Para retomar a vida sem as drogas, é preciso estar consciente e com a cabeça ocupada. O tripé que sustenta essa consciência é formado por: trabalho, disciplina e oração.

Todos os moradores do Recanto Silvestre estão lá por vontade própria. Ou pelo menos porque se preocupam com a vida de terceiros. Ninguém é obrigado a continuar o tratamento, que dura seis meses, mas existem três práticas que são proibidas e levam à exclusão: sexo, drogas (cigarro é permitido) e violência.

O primeiro contato dos estudantes de Jornalismo da 6ª fase da UNISUL com os adictos ocorreu na capela do Recanto. Sentados em círculo, em bancos compridos, 27 homens se apresentaram aos alunos. Com certo receio, alguns preferiram ficar calados. Receio também visível nos estudantes que temiam perguntar. Estabelecido o primeiro encontro, a vontade de voltar e saber mais era imensa.

Foi na segunda visita ao Recanto Silvestre que Cristiano, 21 anos, recém-chegado, narrou toda sua trajetória no uso da cocaína. Embora não soubesse muito o que contar, sentiu-se livre para relatar todos os passos que o levaram a entrar de cabeça nas drogas. No início da conversa, sentado à beira da cachoeira, Cristiano logo se descreveu como filho de pais pobres. Empolgado em relatar tudo em detalhes, deixou fluir os acontecimentos, sem parecer se dar conta dos aspectos trágicos e graves que envolvem sua vida.

Aos 18 anos, com vontade de ganhar dinheiro facilmente, o garoto começou a vender cocaína. Como queria roupas caras e festas regadas a boas bebidas, achou no tráfico sua maior renda. Durante dois anos permaneceu traficando drogas, sem usá-las. Nesse período de venda, adquiriu o que sempre achou que lhe faltara: roupas de marca e festas. Mas suas duas maiores aquisições foram uma moto e um bar. Em dois anos, contou com a vista grossa da mãe e o completo desconhecimento do pai diante do tráfico. Mas quando seu pai soube o que fazia para conseguir tantos bens materiais, expulsou-o de casa. Foi morando no bar durante alguns meses que o rapaz descobriu o efeito da droga que comercializava.

Cristiano demonstrou dificuldade em descrevê-los durante a conversa, mas garantiu que sabe e lembra tudo que fez durante o efeito da cocaína. Não gosta muito de recordar um fato marcante: no dia em que viu sua namorada jogando toda sua droga no vaso sanitário, deu-lhe um tapa na cara. No momento da discussão, Cristiano estava sob efeito da cocaína, mas mesmo com todos os altos e baixos da excitação que a droga proporciona, admite ter se arrependido no mesmo instante.

Em várias idas e vindas para a casa dos pais, o jovem por algumas vezes teve vontade de parar com as drogas. Cristiano lembra as vezes que suas irmãs o viram sob o efeito da cocaína, e lamenta muito por isso. Mas o momento crucial foi quando seu pai o expulsava de casa pela segunda vez. Durante a briga, o pai de Cristiano quase teve um ataque cardíaco, o que fez com que o adicto pensasse em algo para se livrar de vez da droga, que naquela época já virara escravo.

No dia seguinte à briga, o pai do jovem propôs que o filho buscasse ajuda em um centro de tratamento, e deu o Recanto Silvestre como referência. Cristiano hesitou no primeiro momento, mas na manhã seguinte, acordou disposto a mudar aquela situação. Foi contando que estava lá por causa dos pais e não por vontade própria que chegou ao fim a primeira conversa com Cristiano. “Por mim eu ficava em casa cheirando pó. Muita gente pode dizer que está aqui porque quer, mas não é. É sempre por outra pessoa”, conta.

No terceiro contato com os adictos, todos os estudantes estavam ansiosos para saber se seus entrevistados continuavam o tratamento. Cristiano ainda estava lá, e agora com algumas impressões e opiniões sobre o centro de tratamento. Após uma semana, o jovem já tinha mais consciência de tudo que havia acontecido, e seu discurso era outro. “Hoje eu estou aqui por mim”, falou entusiasmado. Os planos de Cristiano para quando sair do tratamento são bem claros. Ele pretende morar em outro bairro, talvez com a namorada, já que quer evitar os lugares que costumava freqüentar quando era um usuário ativo de drogas. Mesmo sabendo que será difícil controlar a vontade, Cristiano quer se livrar das drogas. O primeiro passo ele já deu, e agora espera nunca mais ver a cara preocupada das irmãs e o olhar de decepção do pai.

Após estes encontros com jovens e adultos tão vulneráreis, é impossível dar às costas ao Recanto Silvestre sem deixar um pouco de si, e levar muito deles. Mesmo sabendo que todos são fortes por estarem lá, a preocupação de quem ouviu suas histórias e seus lamentos é intensa. A todos que, por algumas horas, escutaram relatos de pessoas tão iguais, mas com realidades diferentes, fica uma inquietação em saber se todos estão bem, se continuarão o tratamento, e por fim se quando saírem ficarão longe das drogas.

O preconceito já não existe mais, e aquilo que pareceria tão distante agora está próximo, pois foi lançado fora o medo do diferente. Muito de nós ficou lá, e, com certeza, conseguimos extrair muito daqueles que lá ficaram. Pois como dizia o poeta “… de tudo fica um pouco…”.



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