03 fev 2016

Um bate papo do lado de cá

Oi pai, há quanto tempo a gente não senta pra conversar né?

 

Faz assim, vai ligando a churrasqueira pra fazer aquela costelinha que eu adoro. Eu vou abrir um latinha de cerveja pra nós dois. Por que olha, senta que la vem história. Lembra quando eu era “vegetariana”, mas comia sempre costelinha de porco que tu fazias? Não tem uma vez que não coma costela e não me lembre disso! Eu sempre inventando moda ne? Continuo a mesma. Muita coisa aconteceu desde a última vez que nos vimos, mais de 3 anos atrás.

Enquanto tu estavas no hospital, naquele período que tu não me via mais, eu escrevi algumas anotações para, caso tu saísse do hospital, eu pudesse te contar o que aconteceu. Infelizmente tu não saiu e as anotações ficaram pra traz, mas eu eu vou contar tudo agora. Saúde! Ta geladinha ne?  

Foi assim, numa ligação cedo pela manhã que descobrimos que tu tinha partido. Logo liguei pro Amir pra contar, e nós dois choramos muito. Tu me perguntava todos os dias no hospital quando ele chegava, mas infelizmente ele não chegou a tempo de dizer adeus. Ele chegou uns dias depois, não me lembro quando. Logo chegou o carnaval e meu aniversário. No meu aniversário não me lembro o que fizemos, mas no carnaval fomos ao bloco dos sujos. O amir descoloriu o cabelo e ficou muito engraçado e não é que a gente se divertiu naquele dia? Mesmo com toda a loucura que estava nossas vidas, bebemos e rimos bastante.

Ta bom, ta bom, ja sei o que tu queres me perguntar. Sim! Tomei conta de tudo, da pensão da mãe, das tuas contas bancarias e das matriculas das crianças na escola. Olha não foi fácil viu? A cada lugar que ia pra resolver uma coisa burocrática, eu me lembrava o porquê estava fazendo tudo aquilo. Mas a única coisa que me passava pela cabeça era fazer tudo exatamente do jeito que tu querias. Nao tinha tempo pra pensar muito. É que tu ainda estavas tão vivo… sei la. Na missa de sétimo dia uma mulher veio falar comigo e perguntou se eu era a Karina, eu disse que sim e ela me abraçou e falou algo como “Milagres acontece, ele quer que tu saibas que ele está bem”. E umas semanas antes eu tinha escrito esse texto aqui, podes ler depois. Mas não vou me prolongar nessa fase, afinal, ainda tem muito o que contar.

Logo depois fui pra Argentina, lembra que o Amir tinha intercâmbio la e ja estava tudo programado pra irmos em Março? Fomos. Foi horrível, horrível. Nada daquilo fazia sentido, afinal ninguém tinha perdido o pai e todos estavam em clima de festa, muita festa. Eu fui, por que sabia que a vida continuava, e fazer as coisas normais que estavam planejadas era minha melhor opção de seguir em frente. E naquela época eu pensava que o melhor era ficar ao lado de quem escolhi dividir minha vida. Inocência minha. Não vou dizer que ele não me ajudava em nada, mas naquele momento era mais importante pra ele pensar nos planejamentos dele. Na verdade tu vais entender mais pra frente sobre isso. Além do mais eu tinha que ouvir dos amigos coisas do tipo “por que tu estás aqui? Deixa ele aproveitar com os amigos”. É, sem comentários. Ele ouvia tudo e não falava nada. Eu me defendia com agressividade, tu me conheces, mas ele achava que eu provocava alguns situações então não tinha necessidade de me defender.  Enfim, houve muito mais disso, mas nem quero me extender nesse tema.

Passei algumas semanas em Buenos Aires e voltei pra casa da mãe. Não fazia sentido estar no meio de festas, mulheres que não tinham nada  ver comigo e drogas. Nunca precisei disso pra fugir de nada, não era naquela hora que eu precisaria. Falei pro Amir que iria voltar, ele preferiu ficar. O tempo passou e logo chegou o casamento da Bárbara, que tu serias padrinho, lembra? O Pedro entrou com a mãe. A Bárbara entrou na igreja com uma foto tua no buquê, uma coisa linda, mas também foi doido. A festa foi incrível, linda, feliz. Todos nós nos divertimos muito, a familia toda junta. Uma das coisas mais lindas de se ver. Todos os homens ficaram bêbados e deram um show no final. Que engraçado. Sim, o Amir estava comigo. Peraí, vou pegar outra latinha pra gente. Quanto tempo não ficávamos assim sozinhos em casa conversando, ein? Eu sei que tu tens o maior orgulho de me ver fazendo minha vida, e eu continuo, viu?  

Em agosto voltamos pra Suiça, eu e o Amir. E ai foi o meu período de readaptação. Lembrar o porquê eu saí da suíça e voltar a rotina sendo infeliz não foi uma tarefa fácil. Desculpa se isso te deixa triste, mas tenho que te contar que nesse momento eu ja tinha esquecido o que era ser feliz. Hoje eu vejo que meu olhos não tinham vida naquela época, mas aos poucos estão voltando a brilhar. Mas eu fiquei firme e forte, e acredita quem foi me visitar no final do ano? A maluca da Mayara e o namorado dela na época. Podes imaginar o quanto rimos né? Ela continua a mesma, sempre com uma história nova e engraçada pra contar. Mas não foi só essa a visita ilustre. O pedro também foi me visitar! Passar o final do ano com ele na Suíça foi uma experiência e tanto.

Falando no Pedro, enquanto tu estavas no hospital e logo depois que tu partiu, ele não aceitava muito bem as coisas, saia bastante à noite. Era a válvula de escape dele, acredito eu. Acho que nessa época ele começou a ter o Amir como uma referencia masculina. Eles iam pra academia juntos e o pedro começou a ir com mais frequência, tanto que hoje ele quer estudar educação física. Foi quando o Pedro estava la em casa que eu comecei a perceber umas coisas no meu relacionamento que me deixava tão triste. Ah pai, ainda tenho tantas coisas pra te contar sobre meu relacionamento. Desculpa, mas vou ter que te decepcionar em relação a uma pessoa que tinhas um enorme carinho. Eu queria muito levar o Pedro pra esquiar, afinal eu NUNCA tinha ido também. Uma amiga ofereceu uma casa nos alpes pra gente passar o final de semana, e seria logo depois do Amir terminar as provas da faculdade. Mas ele falou que não ia, que odiava neve e depois que as provas acabassem ele queria sair pra beber com os amigos. Foi a primeira ‘facada’ que eu senti. Doeu, doeu mais por que eu sabia que o pedro queria tanto, e principalmente, queria a companhia dele. Tudo bem, não fomos pra essa casa, mas eu comprei tickets pra mim e pro pedro e fomos nós dois e mais uns amigos passar o dia num estação de esqui. Que divertido! Claro, obvio que caímos, o que tu achas? Ainda com o pedro la em Zurique, no dia 8 de janeiro fomos ao lago, compramos flores brancas e jogamos pra ti. Tu recebeu? Durante muito tempo eu olhava pro lago e só te via la, feliz da vida nadando e fazendo planos pra voltar e nadar mais. Verão passado foi bem quente e aproveitei bastante por ti.  

Nossa, estavas com saudade de uma Bohemia gelada, ein? Vou abrir mais uma.   Mas voltando ao assunto… A vida continuou em Zurique, mas sem a mesma graça. Ah, logo que voltei pra Suíça conheci um grupo de brasileiros/suíços muito legais, somos amigos até hoje e nos intitulamos de Os Suíçados. Eram todos casais jovens como eu e o Amir, e eu me sentia tão bem em finalmente ter amigos casais para dividir outras experiências. Afinal os amigos do Amir, poucos tem namoradas, e os que têm nunca levam elas as festas. Por mais que eu tivesse esses amigos, um emprego melhor… Ah, isso, eu não cuido mais daquelas crianças. Eu trabalho na empresa do pai de uns amigos, e o trabalho é bem melhor agora. Só que foi nessa época que eu comecei a ficar insegura com tudo. Eu não tinha certeza de mim, não tinha certeza do meu relacionamento e muito menos da vida. Eu comecei a ter medo de perder tudo. Nossa, como é ruim lembrar dessa fase, foi tão difícil, pai. E a pessoa com que eu mais contava era a mais distante de mim. Por que tu sabes, não basta estar do lado pra estar junto, não é mesmo? Mas sempre que a gente conversava ele me dizia que se a gente continuasse junto tudo estaria bem. Inocência minha, no final descobri que se a gente continuasse junto, ai é que tudo estaria mal. E ficou mal, muito mal. Não, eu não vou chorar.  

As coisas estavam ruins, tudo muito estranho e tudo que eu mais queria na minha vida era ter um lugar pra mim, um cantinho sabe? E claro, que eu pensava no meu cantinho com o Amir, nada mais obvio. Ele me dizia “sim, vamos ver isso ai”. Até que um dia eu não aguentei e sai pra passear com ele, e aos prantos eu disse “eu não seu quanto a você, mas eu preciso do meu espaço, se você não for, eu vou sozinha” e ele me disse “enquanto a gente continuar juntos, tudo vai ficar bem. A gente vai procurar nosso canto junto”. E eu senti que ele estava nessa comigo. Aliás, me ver aos prantos falando que quero meu espaço foi o que ele mais viu nos ultimos anos. Sim, nos últimos anos. Era a única coisa que eu pedia pra ele. Mas se eu te contar tudo em detalhes vamos ficar aqui por três dias. Logo depois disso a mãe veio me visitar com a tia madrinha, enquanto o Amir ia viajar com aqueles amigos que ele viaja todo ano. Eu sinto muito por essas ferias delas, por que foi uma época tão triste, tão abafada. Antes de ir viajar o Amir me escreveu que era uma sensação estranha partir, que ja estava com saudades e não via a hora de voltar e começar nossa vida sozinhos, finalmente. A verdade é que ele voltou depois de duas semanas e não queria mais nada daquilo. Não queria estar casado, não se sentia “ele mesmo” do meu lado e mais um montão de coisas que não vale a pena contar. Ai eu li sem querer um bilhete no celular dele dizendo que ele não podia sacrificar a vida dele por alguém, e eu me lembrei que tu pediu, enquanto estava no hospital, pra ele cuidar de mim. Eu nunca desejei ser sacrifício pra ninguém. Mas enfim, eu também falei que não estava feliz, e que a vida de casada também estava pesada pra mim. Ainda bem que a mãe estava do meu lado.

Os dois concordaram que iriamos dar um tempo, mas que um ainda queria o outro. Foi ai que começou uma onda de vai e vem que me deixou doente, psicologicamente falando. Descobri meu ponto fraco, meu “calcanhar de Aquiles”. Nessas idas e vindas dele, de “te quero” e “não tenho certeza”, a mãe so dizia: Minha filha, depois de tudo isso sabe o que o teu pai falaria? Manda esse suíço tomar no c*. Verdade? Putz, Sabia que ela estava certa. Mas a verdade é que eu perdi todas as changes de fazer isso. Todas, tanto que no final de tudo não valia mais nem a pena mandar tomar naquele lugar, foi mais um “tanto faz, também ja estou de saída”. Não, nao se preocupa, não dependo financeiramente dele, como nunca dependi. Encontrei pessoas a fim de ajudar sem nada em troca. Na vida é assim, a gente sempre se surpreende com as pessoas, tanto pro bem como pro mal. O ápice de tudo? Não, essa eu te conto depois, mas posso te garantir que respeito foi pros ares, talvez nunca tivesse existido e eu que me iludi, achando que tinha algo dentro do saco. No final descobri que o saco sempre esteve vazio, era eu que fazia volume nele.  

Mas vamos falar de quem vale, e muito, a pena. Pai? Ta me escutando? Ah bom, sempre com essa mania de ‘desligar’ de vez em quando né? Eu sei que eu falo demais, mas poxa vida, faz tempo. Muita coisa aconteceu. A mãe continua batalhadora e uma mãe presente, como sempre. Ela é incrivelmente forte, e hoje eu entendo por que tu se apaixonou por ela e viveu 25 anos ao lado dela. Com a idade a gente aprende a ver as pessoas e coisas por um outro ângulo, e hoje, com meus problemas de mulher adulta, eu a entendo muito mais.  

A Maria começou a namorar o Gabriel logo depois que tu se foi. Sim, anjo Gabriel. Alias, foi que mandou ele? Tu não acreditas, ele é parceiro de todos, ajuda a mãe, conversa com ela e a acompanha no Giassi. Me diz, quem tem paciência de ir ao mercado com a mae? Ele tem.   O Pedro virou um homem lindo, calmo como sempre. Mas tem que ser calmo mesmo no meio da mulherada toda. As vezes ele faz alguma coisa, um gesto, que parece que estou te vendo na minha frente, é impressionante. E recentemente ele encontrou a primeira Paulinha da vida dele. Tu perguntava sempre “Pedro, quando tu vais apresentar uma Paulinha pra gente?”. O nome dela é Leticia.   A Victoria ta uma mocinha linda. Se tu me achavas difícil, espera pra ve-la. 3 vezes pior. Respondona, mas a mais carinhosa da casa. Ela vem com aquela mão pesada, agarra meu rosto e diz ” é linda né?” Linda é ela, nosso eterno bebe.  

A rotina da casa é a de sempre, mas hoje como tu, eu também sou visita e fico só observando. A Deia veio morar com eles, e o Lupi veio junto. Não posso esquecer da Wendy, que só dorme pelos cantos. O pedro quieto no Ipad, a Maria e a Victoria brigando por algo bobo e a mãe na cozinha sempre preparando algo delicioso. Falando em delicioso,  a costelinha ja esta quase pronta.   Antes de comer, vamos dar uma volta pela casa, quase nada mudou mas deves estar com saudades. Já deu pra perceber que aqui fora tudo continua igual né? Continuamos a sentar ao redor da mesa e nas cadeiras que fizestes com tanto carinho.   Espera aí na porta, vou abrir mais uma latinha de cerveja. Vamos acabar bêbados. E não seria a primeira vez.   Agora vem. Entra. Ainda tenho tanto pra te contar…


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