19 maio 2017

Ela só quer…

Ela queria o conforto de alguém. Alguém que se sentisse confortável do lado dela.
Ela queria alguém que pudesse impressionar.
Ela queria que ele tivesse pegada forte. Eu disse forte.
Ela queria sair pra jantar e dar risadas.
Ela queria alguém que tirasse sua roupa lentamente e cultuasse seu corpo, em olhares e palavras.
Ela queria alguém que chegasse com ela na festa cheio de orgulho.
Ela queria alguém que a fizesse esquecer de tudo em poucos minutos de toque.
Ela se abriu pra vida e teve tudo isso.

Por que ela ainda procura?


06 jan 2017

Não é difícil

Eu lembro que antes de me mudar para a Suíça o meu ex me dizia que era muito difícil arrumar um apartamento pra gente morar sozinho, pois era super caro e ele era estudante o que dificultava no processo. E eu não entendia o porquê. Não somente pelo fato de eu não saber nada sobre a suíça, mas é por que eu nunca soube lidar muito bem com o “é difícil”. Eu sempre, sempre acho que tudo é possível. Não me importa se é difícil eu somente preciso saber como fazer.

Dai muita gente falava que era muito difícil aprender alemão, e eu eu poucos meses de curso ja conseguia me comunicar na lingua. Eu ouvi do meu ex marido tantas vezes ele dizer que casamento era difícil, e aquilo me doida tanto, por que pra mim, não interessava o quão difícil era, mais o quanto eu o amava. E com ele e por ele eu lutei até não ter mais forças, até acabar com toda a minha auto estima. Até meu corpo avisar a mente que não tava mais. Até a mente falhar também e eu perceber que tava na hora de parar.

Daí eu precisava arrumar um jeito de ficar aqui. A maioria das pessoas fazia aquele carinha de enrugar o canto da boca, como quem pensa “é difícil”. Eu só não sabia como fazer. Não foi nenhum pouco fácil.

Daí eu achei que estava na hora de morar sozinha, realizar o sonho de quando eu cheguei aqui. Daí mesmo que todos me falaram que não ia ser… fácil. E durante esses anos todos aqui alguém me viu querendo algo fácil? Muita gente achou que seria impossível, que eu não daria conta financeiramente.

E eu me lembro dos dias que eu chorava a cada segundo pensando o quão difícil seria esquecer meu ex. Mas em nenhum momento eu pensei que fosse impossível. Hoje eu sei lidar com a presença dele na minha história e vivo muito bem com isso. Eu somente não tinha ainda achado uma maneira de fazer isso. Eu descobri que não precisaria esquece-lo.

Quando meu pai morreu há quase 4 anos eu somente pensava “o tempo cura, não é mesmo?”. É claro que doeu mais que tudo nessa vida, mas eu não me desesperei, por que eu sabia que aquela dor iria passar. Eu sabia que tinha uma saída. Eu não era a primeira pessoa a passar por aquela situação.

Eu me lembro também de varias noites que eu chorei no meu quarto do apartamento que dividia as amigas, pensando “Meu deus, como eu faço pra conseguir morar sozinha, levando em conta minha situação aqui”. Eu não tinha a minima ideia de como as coisas poderiam se desenrolar, mas eu tinha certeza absoluta que iriam.

——

Esse ano virou e eu não tive nenhuma resolução de ano novo. Talvez se deva a paz e a tranquilidade por estar tudo como deveria estar.

No final do ano de 2012 eu estava no Brasil, apenas esperando noticias do hospital. Eu virei o ano na agonia.

No final do ano de 2013 meu irmão veio passar a virada do ano comigo em Zurique e meu casamento ja estava dando os primeiros passos que nos levaria ao fim. Eu ja percebia algo sem saber direito o que era.  Eu virei o ano na agonia.

No final do ano de 2014 eu estava no Brasil pra tentar recarregar minhas forças que já me pareciam nulas. Eu fiz festa, beijei na boca pra tentar esquecer meu ex, e tudo que eu pensava era se eu conseguiria ser forte quanto voltasse. Eu virei o ano na agonia.

No final de 2015 ja cansada de não ter mais energias, cansada de ser quem eu tinha me tornado eu fui pro Brasil de novo. Passei a virada do ano com a minha melhor amiga. A gente tinha uma certeza louca que o próximo ano seria o ano das nossas vidas. Nenhuma das duas tinha minha ideia do que viria. Eu virei o ano cheio de esperança.

Depois de viver na aflição por 3 anos eu me lembrei que eu não aceitava a impossibilidade. Eu me lembrei que eu somente precisava saber como fazer.

Não da pra descrever o quanto o ano de 2016 foi magico na minha vida. Eu me reergui, me reconstruí, me reconheci. Me libertei de tudo que me fazia mal, principalmente de mim mesma.

É tão gratificante olhar pra traz e ver tudo tão bom. Meu último vídeo de 2015 postado no Youtube eu choro em frente a camera falando que eu esperava que 2016 me trouxesse felicidade, por que eu ja tinha me esquecido o que era.

Hoje eu não me lembro mais o que é infelicidade.  Não existe a minima possibilidade de eu deixar o medo me bloquear de ser feliz. Não existe a minima possibilidade de eu deixar de lutar pelo que eu quero. Mas vale lembrar que eu não fiz nada disso sozinha. Se tem uma coisa que o ano de 2016 me apresentou foi gratidão. Sou grata pela vida, pelas experiências e principalmente pelas pessoas que estão na minha vida.

Eu tenho um amigo que se chama Jeff e ele me disse uma vez “Amiga, sabe qual é a minha missão aqui? Fazer o Jeff feliz”.

Tem coisa mais bonita que isso, viver pra ser feliz? Desculpem me os pessimistas, mas não é difícil.


03 fev 2016

Um bate papo do lado de cá

Oi pai, há quanto tempo a gente não senta pra conversar né?

 

Faz assim, vai ligando a churrasqueira pra fazer aquela costelinha que eu adoro. Eu vou abrir um latinha de cerveja pra nós dois. Por que olha, senta que la vem história. Lembra quando eu era “vegetariana”, mas comia sempre costelinha de porco que tu fazias? Não tem uma vez que não coma costela e não me lembre disso! Eu sempre inventando moda ne? Continuo a mesma. Muita coisa aconteceu desde a última vez que nos vimos, mais de 3 anos atrás.

Enquanto tu estavas no hospital, naquele período que tu não me via mais, eu escrevi algumas anotações para, caso tu saísse do hospital, eu pudesse te contar o que aconteceu. Infelizmente tu não saiu e as anotações ficaram pra traz, mas eu eu vou contar tudo agora. Saúde! Ta geladinha ne?  

Foi assim, numa ligação cedo pela manhã que descobrimos que tu tinha partido. Logo liguei pro Amir pra contar, e nós dois choramos muito. Tu me perguntava todos os dias no hospital quando ele chegava, mas infelizmente ele não chegou a tempo de dizer adeus. Ele chegou uns dias depois, não me lembro quando. Logo chegou o carnaval e meu aniversário. No meu aniversário não me lembro o que fizemos, mas no carnaval fomos ao bloco dos sujos. O amir descoloriu o cabelo e ficou muito engraçado e não é que a gente se divertiu naquele dia? Mesmo com toda a loucura que estava nossas vidas, bebemos e rimos bastante.

Ta bom, ta bom, ja sei o que tu queres me perguntar. Sim! Tomei conta de tudo, da pensão da mãe, das tuas contas bancarias e das matriculas das crianças na escola. Olha não foi fácil viu? A cada lugar que ia pra resolver uma coisa burocrática, eu me lembrava o porquê estava fazendo tudo aquilo. Mas a única coisa que me passava pela cabeça era fazer tudo exatamente do jeito que tu querias. Nao tinha tempo pra pensar muito. É que tu ainda estavas tão vivo… sei la. Na missa de sétimo dia uma mulher veio falar comigo e perguntou se eu era a Karina, eu disse que sim e ela me abraçou e falou algo como “Milagres acontece, ele quer que tu saibas que ele está bem”. E umas semanas antes eu tinha escrito esse texto aqui, podes ler depois. Mas não vou me prolongar nessa fase, afinal, ainda tem muito o que contar.

Logo depois fui pra Argentina, lembra que o Amir tinha intercâmbio la e ja estava tudo programado pra irmos em Março? Fomos. Foi horrível, horrível. Nada daquilo fazia sentido, afinal ninguém tinha perdido o pai e todos estavam em clima de festa, muita festa. Eu fui, por que sabia que a vida continuava, e fazer as coisas normais que estavam planejadas era minha melhor opção de seguir em frente. E naquela época eu pensava que o melhor era ficar ao lado de quem escolhi dividir minha vida. Inocência minha. Não vou dizer que ele não me ajudava em nada, mas naquele momento era mais importante pra ele pensar nos planejamentos dele. Na verdade tu vais entender mais pra frente sobre isso. Além do mais eu tinha que ouvir dos amigos coisas do tipo “por que tu estás aqui? Deixa ele aproveitar com os amigos”. É, sem comentários. Ele ouvia tudo e não falava nada. Eu me defendia com agressividade, tu me conheces, mas ele achava que eu provocava alguns situações então não tinha necessidade de me defender.  Enfim, houve muito mais disso, mas nem quero me extender nesse tema.

Passei algumas semanas em Buenos Aires e voltei pra casa da mãe. Não fazia sentido estar no meio de festas, mulheres que não tinham nada  ver comigo e drogas. Nunca precisei disso pra fugir de nada, não era naquela hora que eu precisaria. Falei pro Amir que iria voltar, ele preferiu ficar. O tempo passou e logo chegou o casamento da Bárbara, que tu serias padrinho, lembra? O Pedro entrou com a mãe. A Bárbara entrou na igreja com uma foto tua no buquê, uma coisa linda, mas também foi doido. A festa foi incrível, linda, feliz. Todos nós nos divertimos muito, a familia toda junta. Uma das coisas mais lindas de se ver. Todos os homens ficaram bêbados e deram um show no final. Que engraçado. Sim, o Amir estava comigo. Peraí, vou pegar outra latinha pra gente. Quanto tempo não ficávamos assim sozinhos em casa conversando, ein? Eu sei que tu tens o maior orgulho de me ver fazendo minha vida, e eu continuo, viu?  

Em agosto voltamos pra Suiça, eu e o Amir. E ai foi o meu período de readaptação. Lembrar o porquê eu saí da suíça e voltar a rotina sendo infeliz não foi uma tarefa fácil. Desculpa se isso te deixa triste, mas tenho que te contar que nesse momento eu ja tinha esquecido o que era ser feliz. Hoje eu vejo que meu olhos não tinham vida naquela época, mas aos poucos estão voltando a brilhar. Mas eu fiquei firme e forte, e acredita quem foi me visitar no final do ano? A maluca da Mayara e o namorado dela na época. Podes imaginar o quanto rimos né? Ela continua a mesma, sempre com uma história nova e engraçada pra contar. Mas não foi só essa a visita ilustre. O pedro também foi me visitar! Passar o final do ano com ele na Suíça foi uma experiência e tanto.

Falando no Pedro, enquanto tu estavas no hospital e logo depois que tu partiu, ele não aceitava muito bem as coisas, saia bastante à noite. Era a válvula de escape dele, acredito eu. Acho que nessa época ele começou a ter o Amir como uma referencia masculina. Eles iam pra academia juntos e o pedro começou a ir com mais frequência, tanto que hoje ele quer estudar educação física. Foi quando o Pedro estava la em casa que eu comecei a perceber umas coisas no meu relacionamento que me deixava tão triste. Ah pai, ainda tenho tantas coisas pra te contar sobre meu relacionamento. Desculpa, mas vou ter que te decepcionar em relação a uma pessoa que tinhas um enorme carinho. Eu queria muito levar o Pedro pra esquiar, afinal eu NUNCA tinha ido também. Uma amiga ofereceu uma casa nos alpes pra gente passar o final de semana, e seria logo depois do Amir terminar as provas da faculdade. Mas ele falou que não ia, que odiava neve e depois que as provas acabassem ele queria sair pra beber com os amigos. Foi a primeira ‘facada’ que eu senti. Doeu, doeu mais por que eu sabia que o pedro queria tanto, e principalmente, queria a companhia dele. Tudo bem, não fomos pra essa casa, mas eu comprei tickets pra mim e pro pedro e fomos nós dois e mais uns amigos passar o dia num estação de esqui. Que divertido! Claro, obvio que caímos, o que tu achas? Ainda com o pedro la em Zurique, no dia 8 de janeiro fomos ao lago, compramos flores brancas e jogamos pra ti. Tu recebeu? Durante muito tempo eu olhava pro lago e só te via la, feliz da vida nadando e fazendo planos pra voltar e nadar mais. Verão passado foi bem quente e aproveitei bastante por ti.  

Nossa, estavas com saudade de uma Bohemia gelada, ein? Vou abrir mais uma.   Mas voltando ao assunto… A vida continuou em Zurique, mas sem a mesma graça. Ah, logo que voltei pra Suíça conheci um grupo de brasileiros/suíços muito legais, somos amigos até hoje e nos intitulamos de Os Suíçados. Eram todos casais jovens como eu e o Amir, e eu me sentia tão bem em finalmente ter amigos casais para dividir outras experiências. Afinal os amigos do Amir, poucos tem namoradas, e os que têm nunca levam elas as festas. Por mais que eu tivesse esses amigos, um emprego melhor… Ah, isso, eu não cuido mais daquelas crianças. Eu trabalho na empresa do pai de uns amigos, e o trabalho é bem melhor agora. Só que foi nessa época que eu comecei a ficar insegura com tudo. Eu não tinha certeza de mim, não tinha certeza do meu relacionamento e muito menos da vida. Eu comecei a ter medo de perder tudo. Nossa, como é ruim lembrar dessa fase, foi tão difícil, pai. E a pessoa com que eu mais contava era a mais distante de mim. Por que tu sabes, não basta estar do lado pra estar junto, não é mesmo? Mas sempre que a gente conversava ele me dizia que se a gente continuasse junto tudo estaria bem. Inocência minha, no final descobri que se a gente continuasse junto, ai é que tudo estaria mal. E ficou mal, muito mal. Não, eu não vou chorar.  

As coisas estavam ruins, tudo muito estranho e tudo que eu mais queria na minha vida era ter um lugar pra mim, um cantinho sabe? E claro, que eu pensava no meu cantinho com o Amir, nada mais obvio. Ele me dizia “sim, vamos ver isso ai”. Até que um dia eu não aguentei e sai pra passear com ele, e aos prantos eu disse “eu não seu quanto a você, mas eu preciso do meu espaço, se você não for, eu vou sozinha” e ele me disse “enquanto a gente continuar juntos, tudo vai ficar bem. A gente vai procurar nosso canto junto”. E eu senti que ele estava nessa comigo. Aliás, me ver aos prantos falando que quero meu espaço foi o que ele mais viu nos ultimos anos. Sim, nos últimos anos. Era a única coisa que eu pedia pra ele. Mas se eu te contar tudo em detalhes vamos ficar aqui por três dias. Logo depois disso a mãe veio me visitar com a tia madrinha, enquanto o Amir ia viajar com aqueles amigos que ele viaja todo ano. Eu sinto muito por essas ferias delas, por que foi uma época tão triste, tão abafada. Antes de ir viajar o Amir me escreveu que era uma sensação estranha partir, que ja estava com saudades e não via a hora de voltar e começar nossa vida sozinhos, finalmente. A verdade é que ele voltou depois de duas semanas e não queria mais nada daquilo. Não queria estar casado, não se sentia “ele mesmo” do meu lado e mais um montão de coisas que não vale a pena contar. Ai eu li sem querer um bilhete no celular dele dizendo que ele não podia sacrificar a vida dele por alguém, e eu me lembrei que tu pediu, enquanto estava no hospital, pra ele cuidar de mim. Eu nunca desejei ser sacrifício pra ninguém. Mas enfim, eu também falei que não estava feliz, e que a vida de casada também estava pesada pra mim. Ainda bem que a mãe estava do meu lado.

Os dois concordaram que iriamos dar um tempo, mas que um ainda queria o outro. Foi ai que começou uma onda de vai e vem que me deixou doente, psicologicamente falando. Descobri meu ponto fraco, meu “calcanhar de Aquiles”. Nessas idas e vindas dele, de “te quero” e “não tenho certeza”, a mãe so dizia: Minha filha, depois de tudo isso sabe o que o teu pai falaria? Manda esse suíço tomar no c*. Verdade? Putz, Sabia que ela estava certa. Mas a verdade é que eu perdi todas as changes de fazer isso. Todas, tanto que no final de tudo não valia mais nem a pena mandar tomar naquele lugar, foi mais um “tanto faz, também ja estou de saída”. Não, nao se preocupa, não dependo financeiramente dele, como nunca dependi. Encontrei pessoas a fim de ajudar sem nada em troca. Na vida é assim, a gente sempre se surpreende com as pessoas, tanto pro bem como pro mal. O ápice de tudo? Não, essa eu te conto depois, mas posso te garantir que respeito foi pros ares, talvez nunca tivesse existido e eu que me iludi, achando que tinha algo dentro do saco. No final descobri que o saco sempre esteve vazio, era eu que fazia volume nele.  

Mas vamos falar de quem vale, e muito, a pena. Pai? Ta me escutando? Ah bom, sempre com essa mania de ‘desligar’ de vez em quando né? Eu sei que eu falo demais, mas poxa vida, faz tempo. Muita coisa aconteceu. A mãe continua batalhadora e uma mãe presente, como sempre. Ela é incrivelmente forte, e hoje eu entendo por que tu se apaixonou por ela e viveu 25 anos ao lado dela. Com a idade a gente aprende a ver as pessoas e coisas por um outro ângulo, e hoje, com meus problemas de mulher adulta, eu a entendo muito mais.  

A Maria começou a namorar o Gabriel logo depois que tu se foi. Sim, anjo Gabriel. Alias, foi que mandou ele? Tu não acreditas, ele é parceiro de todos, ajuda a mãe, conversa com ela e a acompanha no Giassi. Me diz, quem tem paciência de ir ao mercado com a mae? Ele tem.   O Pedro virou um homem lindo, calmo como sempre. Mas tem que ser calmo mesmo no meio da mulherada toda. As vezes ele faz alguma coisa, um gesto, que parece que estou te vendo na minha frente, é impressionante. E recentemente ele encontrou a primeira Paulinha da vida dele. Tu perguntava sempre “Pedro, quando tu vais apresentar uma Paulinha pra gente?”. O nome dela é Leticia.   A Victoria ta uma mocinha linda. Se tu me achavas difícil, espera pra ve-la. 3 vezes pior. Respondona, mas a mais carinhosa da casa. Ela vem com aquela mão pesada, agarra meu rosto e diz ” é linda né?” Linda é ela, nosso eterno bebe.  

A rotina da casa é a de sempre, mas hoje como tu, eu também sou visita e fico só observando. A Deia veio morar com eles, e o Lupi veio junto. Não posso esquecer da Wendy, que só dorme pelos cantos. O pedro quieto no Ipad, a Maria e a Victoria brigando por algo bobo e a mãe na cozinha sempre preparando algo delicioso. Falando em delicioso,  a costelinha ja esta quase pronta.   Antes de comer, vamos dar uma volta pela casa, quase nada mudou mas deves estar com saudades. Já deu pra perceber que aqui fora tudo continua igual né? Continuamos a sentar ao redor da mesa e nas cadeiras que fizestes com tanto carinho.   Espera aí na porta, vou abrir mais uma latinha de cerveja. Vamos acabar bêbados. E não seria a primeira vez.   Agora vem. Entra. Ainda tenho tanto pra te contar…


07 abr 2015

A mudança sempre vem de dentro

Não é novidade pra ninguém que passei por uma fase muito ruim na minha vida. Foi uma coisa atrás da outra, caindo na minha cabeça, e eu tentava me manter forte. Enquanto eu me deixava cair, meus amigos me jogavam pra cima, sempre com elogios.

Eu ouvia as pessoas dizendo o quanto me admiravam, o quanto eu era forte e tentavam me mostrar tudo que eu tinha. E eu achava que não tinha nada. Como me admirar se eu não faço nada de especial? O que afinal eu tinha? Um visto de residência em outro país? Pra que me admirar se eu nem dei inicio a minha carreira profissional? Aí um dia você acorda e se da conta: Eu estou exatamente como queria estar. Um ajuste ali um aqui, mas eu sou exatamente quem eu sempre quis ser aos quase 30. Como eu demorei tanto pra perceber isso?

Eu tenho um texto guardado que eu contava do susto de chegar aos 25 e não ter adquirido nem metade do que eu queria na vida. É, eu sempre fui superexigente comigo mesma. Eu tinha medo de deixar que a minha felicidade do amor me acomodasse. E me assustava saber que a única coisa que tinha dado extremamente certo era a minha vida amorosa. Mas até então eu recebia mal e trabalhava com o que eu não gostava.  Eu tinha medo demais, essa é a verdade. Mas quem vive uma vida sempre cheia de certezas?

Nós temos várias fases na vida. E às vezes sair de uma, e entrar em outra pode ser um processo longo e doloroso. Ninguém acorda um dia e decide “Hoje vou ficar mais madura”. Eu me lembro que com 19 anos eu tive uma crise de identidade, que pareceu mais uma leve deprê. Era como se eu não me conhecesse mais, como se eu não soubesse pra onde ir, muito menos por que ir. Minha mãe me falou, na época, que algumas vezes nós mudamos, amadurecemos e com fica difícil se reconhecer mesmo. Um dos processos mais difíceis é durante a adolescência, que quando a pessoa finalmente se aceita, a adolescência já acabou. É, às vezes o período de mudança é longo. Às vezes prolongamos.

Desta vez, meu processo de mudança além de ser demorado, foi conturbado. Eu me mantinha presa a Karina de antes, sendo que aos poucos o mundo dela ia se modificando. E eu meio que fiquei pra trás. Por que afinal de contas, os últimos anos foram os melhores da minha vida, até que… Enfim vocês sabem. Tem mudanças de fases que a gente só percebe quando acabou, mas infelizmente minhas mudanças foram escancaradas na minha cara.

Eu sempre tive a mania de me autoanalisar e por vezes fico meio melancôlica ou paralizada. E sinceramente acho que se você não passa por isso, ou vive a vida errada, ou vai passar por ela despercebida. Ou pior, sem se perceber.

Sim, a vida me deu umas boas rasteiras ultimamente, mas tudo passa. E ainda está passando.

Eu estou longe da família, eu sei.. mas morar fora do país pra mim é um sonho realizado. Tem seus contras, mas ainda assim, estou quaaaaase como sempre quis. Demorou pra eu perceber! Tenho um emprego que me deixa viajar por períodos longos. Não ganho tão bem quanto uma suíça formada aqui, mas me mantenho sozinha e sem a menor dificuldade. Compro minhas bolsas, meus sapatos e pago minhas viagens. Tenho pessoas muito bacanas ao meu redor, sejam minhas adoráveis jovens brasileiras casadas, ou minhas suíças malucas que bebem mais que homem. E tenho ainda também um relacionamento com a pessoa responsável pela maior mudança na minha vida. Tudo ficou muito conturbado entre a gente, por causa de tanta mudança. Mas eu só preciso achar onde ele entra na minha vida e onde eu entro na vida dele depois de tantas mudanças e tantas descobertas. Mas eu acredito que vamos nos “achar” de novo. De alguma maneira vamos.

Mais uma vez eu saí do casulo. Mais uma vez estou orgulhosa de mim mesma. Foi difícil, foi muito mais doloroso que da ultima vez.

Minhas asas estão renovadas, quem sabe assim posso alçar voos maiores?


20 out 2014

O meu erro

Uma das coisas mais triste num relacionamento é quando cada um quer andar pra um lado. Isso não significa que os dois queriam se separar, mas cada um quer andar na direção que escolher, e seria perfeitamente maravilhoso, se o outro escolhesse o mesmo caminho. Mas nem sempre é assim. E daí quando você se vê nessa situação, há algumas opções do que fazer:
1. Insistir em fazer as coisas do seu jeito, afinal é a vida que você sonhou, mesmo que seja sem ele.
2. Insistir em dizer que o jeito dele não funciona pra você, e quem deve mudar é ele.
3. Aceitar fazer tudo do jeito dele, pois afinal o importante é o sentimento, e quem sabe um dia ele mude.
4. Aceitar mudar algumas coisas esperando que o outro também mude. Daí você faz uma mudança aqui, aceita outra coisa ali, ele faz o mesmo, porém você não vê. Ou acha que nunca é o suficiente. Por que na verdade tudo que você queria era que ele escolhesse a opção 3.

E nesse processo de cada lado ceder um pouco, os dois lados ficam cada vez mais convictos nas suas decisões e que não devem ceder nada. E nisso os casais de afastam. E aí começa a parte mais difícil: aceitar que talvez a decisão mais sensata fosse escolher desde o início a opção número 1.

Se ao final eu “falhei”, eu tenho certeza que eu tentei, cedi, aguentei e em algumas coisas mudei. Eu passei pela opção 3 e depois 4, e infelizmente vi que a melhor opção pra mim seria a numero 1. E eu que um dia pensei que a única opção era ficar junto, não importa o que aconteça.

“Você diz não saber, o que houve de errado e o meu erro foi crer, que estar ao seu lado bastaria.”


28 dez 2008

Lar Doce Lar

Como é bom voltar pra casa depois de uma semana em Gravatal City. Qualquer lugar cansa menos que lá. Uma semana parece uma eternidade! Mas eu sobrevivi ao calor, aos mosquitos, à monotonia e às lagartixas. O calor é infernal e dá a sensação de que a casa está derretendo. Os mosquitos são que nem homens, onde tem carne nova no pedaço eles caem em cima. E o legal é que eles picam nos lugares mais estranhos, como sobrancelha, orelha, cotovelo, e quando eu to na piscina eles me picam na bunda. Coisas que só acontecem comigo!

A monotonia nem se fala. Eu acordava de manha já desesperada por saber que nas próximas horas não haveria absolutamente nada pra eu fazer. Eu até tentei ler e escrever, mas o calor não deixava. E na hora de tomar banho? Quem diz que eu entro em um banheiro com lagartixa? Tem uma explicação lógica/fantasiosa para esse meu medo (terror) de lagartixas. Quando minha mãe estava grávida de mim uma lagartixa caiu em cima da barriga dela. Eu fico toda nervosa se eu vejo uma. Então toda vez que eu ia entrar no chuveiro tinha que fazer aquela inspeção. “Ai, tadinho do bichinho, não faz mal à ninguém, e ainda come os insetos”. Ah, me poupe. Bem também não faz, e além do mais, já existe inseticida pra matar os insetos.

Não posso dizer que Gravatal City só tenha coisa ruim, até por que é minha cidade natal. Bem, nem tão natal assim, já que em Gravatal não existe maternidade, então eu nasci mesmo em Armazém, o que eu prefiro não comentar. Em Grataval City as pessoas falam “Misericórdia” pra tudo que cause o mínimo de espanto. E “vê se já de viu?”, que funciona como o “ora pois” do manézinho. Outra coisa boa sobre a cidade é que lá nunca ninguém é desconhecido. Todo mundo é parente de todo mundo, principalmente de falecidos. “A neta da faLIcida Carminha”. “O filho do faLIcido tio Antônio”. Ninguém sabe meu nome, mas sabem de certeza que eu sou a neta do Zé Cearense. É, meu avô. Uma lenda de Gravatal conhecido por sua imensa grosseria nordestina. Pra ele todo mundo é corno e vagabundo. Mas as pessoas relevam, até por que ele não dá a mínima pro que a gente fala mesmo, mas tem um coração enorme.

Eu, definitivamente, sou uma garota urbana. Não conseguiria viver em um lugar assim tão calmo. Mas uma coisa é admirável naquele povo do interior: a simplicidade. Ninguém hesita em cumprimentar o outro. Todos oferecem carona. E por mais que a linguagem não seja a mais rebuscada, se fazem entender e mostram que não é preciso ir tão longe pra saber demais da vida.


16 out 2008

Pimenta ou Açúcar?

Um dias desses num bate-papo online.

amigo diz: cara, sinceramente nao entendo
Karina diz: o que?
amigo diz: eu tenho uma amiga q é muito linda tambem e tem praticamente o mesmo problema, pelo menos é o q ela diz
Karina diz: ninguem quer ler o livro todo, só a introdução.. mas eu sou legal
amigo diz: q ninguem quer nada com ela, q todos terminam com ela e nao é ela q termina
Karina diz: sim, mas é sempre assim, vai saber
amigo diz: dai eu falei q devia ser por ela ser exigente demais, sei la, talvez pela beleza dela ela procurasse algo de um nivel muito alto e ela diz q nem é tao exigente assim
amigo diz: entao nao sei. Acho q os homens tem uma visao de “impossivel” de voces
Karina diz: mas pq?? As vezes parece que eu assusto?
amigo diz: ehuaheuia. nao sei tambem, mas acho q voces intimidam as pessoas, sabe?
Karina diz: voces como? Me decifra..
amigo diz: voces q estao num patamar a cima das outras 😉
Karina diz: fala sobre isso, preciso que alguem fale sobre o que eu sou
amigo diz: entao ta. vou tentar. Vc se destaca no meio de outras mulheres. Se tem um grupinho de meninas, teu jeito, tua personalidade, tua beleza, te realça. Entao se tipo, um “cara” for chegar nesse grupinho pra puxar um papo, ou ele se garante muito e tenta mais em ti ou tenta nas outras desse grupinho onde é mais propicio que ele consiga
Karina diz: eu passo a imagem de impossivel?
amigo diz: claro q vai de pessoa pra pessoa. É tipo essa minha amiga. ela nao precisa ficar se achando. Tipo tu. Tu naturalmente ja consegue as atençoes sem precisar fazer nada demais
amigo diz: tipo, alguem no casamento chegou em ti?
Karina diz: nao
amigo diz: entao. mas tenho certeza q talvez numa normalzinha tenham chego
Karina diz: as pessoas nao vêm.. ou quando vem, desistem
amigo diz: é bem isso q acontece.. e qdo nao vem nao é pq nao querem e sim pelos motivos relatados aqui 🙂
Karina diz: mas é que eu nao sei o que fazer.. ai eu fico sempre achando que a culpa era minha
Amigo diz: culpa tua nao é. Tambem nao sei a soluçao
Karina diz: que triste!

E quando os homens irão cansar das “normalzinhas”?


13 out 2008

Mentiras sinceras, verdades farsantes

Aos poucos começo a pensar que minha vida amorosa turbulenta não é tão ruim assim. A gente sempre aprende um pouco. Minha história é mais ou menos assim:

Eu estava ficando com um cara e o relacionamento estava lá pelo segundo mês. Até aí tudo tranquilo. Nesse ponto eu já criava espectativa de namorar o suposto cara. De repente, não mais que de repente, ele sumia. Sim, aquela velha história de que os homens somem; eu sei de cor! Não foi uma vez, nem duas, foram várias. A verdade é que eu nunca, nunca mesmo fui atrás de explicações. Sempre pensei: “Se não quer, não vou insistir”. Eu simplesmente saía de campo, como se não tivesse um zilhão de perguntas pra fazer. Perguntas do tipo: “Até ontem tava tudo bem, me diz então por quê?”. Não, era humilhação demais, eu achava. Eu achava que meu último relacionamento era um início de namoro só porque o cara dormia “de conchinha” comigo. Não era uma prova de que ele adorava a minha companhia à noite e sim a fragilidade explícita do homem. Talvez eu não tivesse entendido os sinais e simplesmente acreditado numa sinceridade que não existia. Mas, mesmo assim eu deixava passar, sem exlicações. E eu que sempre fui boa em argumentar…

Logo após o sumiço eles apareciam com uma namorada. Outra pessoa ocupando o lugar que eu tava querendo. Eu agia muito bem na frente delas, sociável até demais. Eu tinha medo de correr riscos, de arriscar. Nunca lutei por nenhum deles. Nunca lutei pelos meus futuros e sonhados namoros. De tão amigável que eu era, mal olhava pra cara do meu ex-ficante, atual namorado daquela que eu batia um papo fingindo normalidade, fingindo incapacidade de dizer: “Cala a boca sua vaca!”, mesmo que a culpa não fosse dela. Mas eu fazia tudo direitinho pra não causar constrangimento, nem ciúmes. Eu sabia que não podia fazer com os outros o que não queria que fizesse comigo. Isso aconteceu tantas vezes comigo, que minhs amigas me zoam dizendo que eu preparo os homens para outras mulheres.

Quando eu percebi que agir tão corretamente não estava dando em nada, quebrei um dos meus principais protocolos. Tudo bem se eu arriscar, o amor é uma loteria, meu pai sempre diz. Num bate papo sobre relacionamentos com a minha mãe ela me disse: “Faz o que tu quer, não o que os outros querem”. Ela, que antes me dizia para nunca passar por cima dos outros por causa dos meus interesses, me disse a frase libertadora, como se eu tivesse esperando a permissão dela pra enfim fazer um pouco o que eu quero. Errar um pouco e agir de forma egoísta não me fez sentir culpa. Nesse tempo de “Indrodução ao namoro” eu descobri que alguém sempre tem que perder. E de agora em diante, que não seja eu.

ps: não estava contando a história de um caso amoroso, mas de alguns.


29 ago 2008

O pecado sempre bate à porta

Até onde vai a fidelidade masculina? Será que é como uma escala que vai dos que traem até o que não traem? Aos poucos me parece que não existe grau para a infidelidade; que na verdade ela é unânime. O pecado da carne um dia vai bater à sua porta. Uns viciam, outros experimentam e alguns se arrependem. Os casos de traição vindo dos homens parecem não ter um motivo. As mulheres também traem, claro, mas na maioria das vezes têm um motivo. Os homens não. Arriscam o amor, o carinho, o cuidado – essência da vida – por uma noite, um beijo ou uns segundos de prazer.

Na minha história foi por uma noite. Uma amiga me apresentou a um cara, eu me interessei e o beijei. Era, sinceramente, o que eu queria naquela noite. Mas não havia expectativa de envolvimento, porque eu tinha acabado de sair de um “namorico”. Meus planos eram outros e me envolver com alguém definitivamente não era um deles. Então tudo bem, todo mundo fica na balada, certo?

No outro dia quando vou procurar o tal nadador no orkut dou de cara com muitas fotos, recados e depoimentos apaixonados. Sem problemas, afinal eu não sabia e tinha sido só uma ‘ficada’.
Foi quando o tal peixinho começou a me mandar mensagens. Mandou o sufuciente pra eu começar a gostar delas. E aquilo era muito confuso, já que eu sabia exatamente o que ele queria de mim. E eu não dizia nada. Era o meu lado negro se manifestando?

Como disse uma conhecida: “Ele tá tentando te seduzir”. E por algumas semanas eu fiquei na indecisão, meio perdida. E eu não gosto de homem que me deixa perdida. Mas com ele eu quase me deixei seduzir. Eu quase quis, quase entrei em uma furada, quase passei por cima dos meus valores, quase me tornei vazia e sem rumo, assim como todas que se envolvem com homens comprometidos.

Ainda bem que eu odeio o quase. Sim ou não. Essas são nossas únicas opções. E passando mais uma provação… com ele eu disse não.


01 jul 2008

Vivência

Por três terças-feiras eu fui a um centro de tratamento para viciados em drogas (adictos). O objetivo era vivenciar e assim escrever. Fazer um jornalismo mais humano, mais próximo.

Eis meu texto:

Receios de lá e de cá

Preconceito. Medo. É isso que todos sentem ao lidar com o diferente. Adentrar o Recanto Silvestre, em Biguaçu, é, sobretudo, ultrapassar os limites do inusitado. A magia e o encanto de descobrir o novo fazem pensar que os homens que lá vivem estão em um mundo à parte. Mas é tudo muito real. Jovens e adultos adictos com o objetivo de resistir às suas fraquezas superam suas expectativas. Todos estão em busca da credibilidade perdida há muito tempo. Para retomar a vida sem as drogas, é preciso estar consciente e com a cabeça ocupada. O tripé que sustenta essa consciência é formado por: trabalho, disciplina e oração.

Todos os moradores do Recanto Silvestre estão lá por vontade própria. Ou pelo menos porque se preocupam com a vida de terceiros. Ninguém é obrigado a continuar o tratamento, que dura seis meses, mas existem três práticas que são proibidas e levam à exclusão: sexo, drogas (cigarro é permitido) e violência.

O primeiro contato dos estudantes de Jornalismo da 6ª fase da UNISUL com os adictos ocorreu na capela do Recanto. Sentados em círculo, em bancos compridos, 27 homens se apresentaram aos alunos. Com certo receio, alguns preferiram ficar calados. Receio também visível nos estudantes que temiam perguntar. Estabelecido o primeiro encontro, a vontade de voltar e saber mais era imensa.

Foi na segunda visita ao Recanto Silvestre que Cristiano, 21 anos, recém-chegado, narrou toda sua trajetória no uso da cocaína. Embora não soubesse muito o que contar, sentiu-se livre para relatar todos os passos que o levaram a entrar de cabeça nas drogas. No início da conversa, sentado à beira da cachoeira, Cristiano logo se descreveu como filho de pais pobres. Empolgado em relatar tudo em detalhes, deixou fluir os acontecimentos, sem parecer se dar conta dos aspectos trágicos e graves que envolvem sua vida.

Aos 18 anos, com vontade de ganhar dinheiro facilmente, o garoto começou a vender cocaína. Como queria roupas caras e festas regadas a boas bebidas, achou no tráfico sua maior renda. Durante dois anos permaneceu traficando drogas, sem usá-las. Nesse período de venda, adquiriu o que sempre achou que lhe faltara: roupas de marca e festas. Mas suas duas maiores aquisições foram uma moto e um bar. Em dois anos, contou com a vista grossa da mãe e o completo desconhecimento do pai diante do tráfico. Mas quando seu pai soube o que fazia para conseguir tantos bens materiais, expulsou-o de casa. Foi morando no bar durante alguns meses que o rapaz descobriu o efeito da droga que comercializava.

Cristiano demonstrou dificuldade em descrevê-los durante a conversa, mas garantiu que sabe e lembra tudo que fez durante o efeito da cocaína. Não gosta muito de recordar um fato marcante: no dia em que viu sua namorada jogando toda sua droga no vaso sanitário, deu-lhe um tapa na cara. No momento da discussão, Cristiano estava sob efeito da cocaína, mas mesmo com todos os altos e baixos da excitação que a droga proporciona, admite ter se arrependido no mesmo instante.

Em várias idas e vindas para a casa dos pais, o jovem por algumas vezes teve vontade de parar com as drogas. Cristiano lembra as vezes que suas irmãs o viram sob o efeito da cocaína, e lamenta muito por isso. Mas o momento crucial foi quando seu pai o expulsava de casa pela segunda vez. Durante a briga, o pai de Cristiano quase teve um ataque cardíaco, o que fez com que o adicto pensasse em algo para se livrar de vez da droga, que naquela época já virara escravo.

No dia seguinte à briga, o pai do jovem propôs que o filho buscasse ajuda em um centro de tratamento, e deu o Recanto Silvestre como referência. Cristiano hesitou no primeiro momento, mas na manhã seguinte, acordou disposto a mudar aquela situação. Foi contando que estava lá por causa dos pais e não por vontade própria que chegou ao fim a primeira conversa com Cristiano. “Por mim eu ficava em casa cheirando pó. Muita gente pode dizer que está aqui porque quer, mas não é. É sempre por outra pessoa”, conta.

No terceiro contato com os adictos, todos os estudantes estavam ansiosos para saber se seus entrevistados continuavam o tratamento. Cristiano ainda estava lá, e agora com algumas impressões e opiniões sobre o centro de tratamento. Após uma semana, o jovem já tinha mais consciência de tudo que havia acontecido, e seu discurso era outro. “Hoje eu estou aqui por mim”, falou entusiasmado. Os planos de Cristiano para quando sair do tratamento são bem claros. Ele pretende morar em outro bairro, talvez com a namorada, já que quer evitar os lugares que costumava freqüentar quando era um usuário ativo de drogas. Mesmo sabendo que será difícil controlar a vontade, Cristiano quer se livrar das drogas. O primeiro passo ele já deu, e agora espera nunca mais ver a cara preocupada das irmãs e o olhar de decepção do pai.

Após estes encontros com jovens e adultos tão vulneráreis, é impossível dar às costas ao Recanto Silvestre sem deixar um pouco de si, e levar muito deles. Mesmo sabendo que todos são fortes por estarem lá, a preocupação de quem ouviu suas histórias e seus lamentos é intensa. A todos que, por algumas horas, escutaram relatos de pessoas tão iguais, mas com realidades diferentes, fica uma inquietação em saber se todos estão bem, se continuarão o tratamento, e por fim se quando saírem ficarão longe das drogas.

O preconceito já não existe mais, e aquilo que pareceria tão distante agora está próximo, pois foi lançado fora o medo do diferente. Muito de nós ficou lá, e, com certeza, conseguimos extrair muito daqueles que lá ficaram. Pois como dizia o poeta “… de tudo fica um pouco…”.



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