01 jul 2008

Vivência

Por três terças-feiras eu fui a um centro de tratamento para viciados em drogas (adictos). O objetivo era vivenciar e assim escrever. Fazer um jornalismo mais humano, mais próximo.

Eis meu texto:

Receios de lá e de cá

Preconceito. Medo. É isso que todos sentem ao lidar com o diferente. Adentrar o Recanto Silvestre, em Biguaçu, é, sobretudo, ultrapassar os limites do inusitado. A magia e o encanto de descobrir o novo fazem pensar que os homens que lá vivem estão em um mundo à parte. Mas é tudo muito real. Jovens e adultos adictos com o objetivo de resistir às suas fraquezas superam suas expectativas. Todos estão em busca da credibilidade perdida há muito tempo. Para retomar a vida sem as drogas, é preciso estar consciente e com a cabeça ocupada. O tripé que sustenta essa consciência é formado por: trabalho, disciplina e oração.

Todos os moradores do Recanto Silvestre estão lá por vontade própria. Ou pelo menos porque se preocupam com a vida de terceiros. Ninguém é obrigado a continuar o tratamento, que dura seis meses, mas existem três práticas que são proibidas e levam à exclusão: sexo, drogas (cigarro é permitido) e violência.

O primeiro contato dos estudantes de Jornalismo da 6ª fase da UNISUL com os adictos ocorreu na capela do Recanto. Sentados em círculo, em bancos compridos, 27 homens se apresentaram aos alunos. Com certo receio, alguns preferiram ficar calados. Receio também visível nos estudantes que temiam perguntar. Estabelecido o primeiro encontro, a vontade de voltar e saber mais era imensa.

Foi na segunda visita ao Recanto Silvestre que Cristiano, 21 anos, recém-chegado, narrou toda sua trajetória no uso da cocaína. Embora não soubesse muito o que contar, sentiu-se livre para relatar todos os passos que o levaram a entrar de cabeça nas drogas. No início da conversa, sentado à beira da cachoeira, Cristiano logo se descreveu como filho de pais pobres. Empolgado em relatar tudo em detalhes, deixou fluir os acontecimentos, sem parecer se dar conta dos aspectos trágicos e graves que envolvem sua vida.

Aos 18 anos, com vontade de ganhar dinheiro facilmente, o garoto começou a vender cocaína. Como queria roupas caras e festas regadas a boas bebidas, achou no tráfico sua maior renda. Durante dois anos permaneceu traficando drogas, sem usá-las. Nesse período de venda, adquiriu o que sempre achou que lhe faltara: roupas de marca e festas. Mas suas duas maiores aquisições foram uma moto e um bar. Em dois anos, contou com a vista grossa da mãe e o completo desconhecimento do pai diante do tráfico. Mas quando seu pai soube o que fazia para conseguir tantos bens materiais, expulsou-o de casa. Foi morando no bar durante alguns meses que o rapaz descobriu o efeito da droga que comercializava.

Cristiano demonstrou dificuldade em descrevê-los durante a conversa, mas garantiu que sabe e lembra tudo que fez durante o efeito da cocaína. Não gosta muito de recordar um fato marcante: no dia em que viu sua namorada jogando toda sua droga no vaso sanitário, deu-lhe um tapa na cara. No momento da discussão, Cristiano estava sob efeito da cocaína, mas mesmo com todos os altos e baixos da excitação que a droga proporciona, admite ter se arrependido no mesmo instante.

Em várias idas e vindas para a casa dos pais, o jovem por algumas vezes teve vontade de parar com as drogas. Cristiano lembra as vezes que suas irmãs o viram sob o efeito da cocaína, e lamenta muito por isso. Mas o momento crucial foi quando seu pai o expulsava de casa pela segunda vez. Durante a briga, o pai de Cristiano quase teve um ataque cardíaco, o que fez com que o adicto pensasse em algo para se livrar de vez da droga, que naquela época já virara escravo.

No dia seguinte à briga, o pai do jovem propôs que o filho buscasse ajuda em um centro de tratamento, e deu o Recanto Silvestre como referência. Cristiano hesitou no primeiro momento, mas na manhã seguinte, acordou disposto a mudar aquela situação. Foi contando que estava lá por causa dos pais e não por vontade própria que chegou ao fim a primeira conversa com Cristiano. “Por mim eu ficava em casa cheirando pó. Muita gente pode dizer que está aqui porque quer, mas não é. É sempre por outra pessoa”, conta.

No terceiro contato com os adictos, todos os estudantes estavam ansiosos para saber se seus entrevistados continuavam o tratamento. Cristiano ainda estava lá, e agora com algumas impressões e opiniões sobre o centro de tratamento. Após uma semana, o jovem já tinha mais consciência de tudo que havia acontecido, e seu discurso era outro. “Hoje eu estou aqui por mim”, falou entusiasmado. Os planos de Cristiano para quando sair do tratamento são bem claros. Ele pretende morar em outro bairro, talvez com a namorada, já que quer evitar os lugares que costumava freqüentar quando era um usuário ativo de drogas. Mesmo sabendo que será difícil controlar a vontade, Cristiano quer se livrar das drogas. O primeiro passo ele já deu, e agora espera nunca mais ver a cara preocupada das irmãs e o olhar de decepção do pai.

Após estes encontros com jovens e adultos tão vulneráreis, é impossível dar às costas ao Recanto Silvestre sem deixar um pouco de si, e levar muito deles. Mesmo sabendo que todos são fortes por estarem lá, a preocupação de quem ouviu suas histórias e seus lamentos é intensa. A todos que, por algumas horas, escutaram relatos de pessoas tão iguais, mas com realidades diferentes, fica uma inquietação em saber se todos estão bem, se continuarão o tratamento, e por fim se quando saírem ficarão longe das drogas.

O preconceito já não existe mais, e aquilo que pareceria tão distante agora está próximo, pois foi lançado fora o medo do diferente. Muito de nós ficou lá, e, com certeza, conseguimos extrair muito daqueles que lá ficaram. Pois como dizia o poeta “… de tudo fica um pouco…”.


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